NPC também sofre

Eu não sei os de vocês, mas meus jogadores têm a mania feia de viver choramingando com o poder dos Personagens (protegidos?) do Mestre, e quando vêem algum falhar, haja tirar sarro e depreciar.


No caso da pobre coitada Bocasuja, eu a fiz levar uma surra tanto porque gosto de mostrar a “mortandade ” do resto do mundo, quanto porque queria que os PJs a ajudassem e assim fosse criado um laço de amistosidade entre eles e a implacável cavaleira. A explicação em regras foi simples: dois acertos críticos do monstrengo no ataque de rapina, mais resultados azarados no d20 por parte da guerreira e ainda o dano cavalar de uma queda de 21 metros de altura minaram seus pontos de vida (haja vista que eu não costumo ficar rolando dados para os NPCs).
Eu sempre tento fazer meus NPCs pensarem como pessoas normais em primeira instância, mas geralmente levo em consideração que eles possuem as mesmas chances de falha e sucesso que os PJs ( quem nunca deu um TPK com um bando de monstros fracotes, que atire a primeira azagaia ). Quando um rei está a perigo, mesmo sendo um personagem de nível alto os jogadores sabem que há uma chance dele morrer, especialmente porque assassinos podem conseguir bons resultados em seus golpes de misericórdia =D. Até os deuses do meu cenário de campanha cometem erros e atitudes estranhas ao seu próprio modus operandi - aliás, a mitologia greco-romana é famosa justamente pela natureza “humana” dos deuses. Eu até me lembro de ter falado em algum lugar aqui que quanto mais o interlocutor se identificar com um personagem, mais vai gostar dele.
Inclusive este é um dos motivos pelo qual os NPCs fodões do mundo simplesmente não resolvem os problemas do cenário, ou mesmo os problemas que os jogadores acham difíceis demais para eles - como são personagens de nível elevado, geralmente com filiações e patrimônio consideráveis, sabem que existe a chance de falhar e o preço para eles é alto demais caso falhem. O exemplo mais usado quando alguém fala do assunto é Elminster: ele já sofre o bastante com seus próprios problemas, como a temporada de férias no inferno que quase encerrou sua carreira, para ficar correndo atrás de grandes vilões e arriscando o pescoço. Na minha campanha, um arquimago tomou o trono depois de uma tramóia arquitetada desde o início da história. Nenhum dos PJs é páreo para ele em combate direto, e estão se articulando para tentar pôr um fim ao seu reinado, mas nunca importunaram nenhum dos figurões que conhecem porque sabem justamente que em questões grandes assim, as coisas são bem mais complicadas. É só você pensar nos melhores anciões de Vampiro: a Máscara ou outros jogos/histórias com manipuladores poderosos. Eles dificilmente se arriscam, preferindo usar peões menores, justamente porque para eles, cada aposta pode acarretar uma perda enorme.

Sua sorte está acabando, Elminho...

Portanto, como há a chance, eventualmente os Personagens do Mestre precisam falhar. Um bom Mestre sabe como maltratar seus NPCs, porque além de essas atitudes serem plot devices muito úteis, é legal que os jogadores tenham uma noção concreta de que eles não são os únicos que se ferram pra valer. Todo jogador que já jogou com um personagem de nível épico, e sentiu na pele que tinha o universo para salvar enquanto os outros enfrentavam a horda orc da vez, sabe disso de cor e salteado. É uma ótima dica, por falar nisso: faça com que os PJs entrem em contato com plots muito fáceis, como um mistério na vila que eles descobrem ser um mago de nível baixo transformando pessoas em mortos-vivos, para que eles arranjem outros aventureiros para resolver o problema, ou mesmo insira outros plots ridículos para eles quando estiverem no meio de uma grande aventura. Aventureiros de nível baixo podem vir pedir a eles que resolvam grandes problemas do cenário, e aí eles vão ter noção de como um personagem ícone se sente. =D

Matéria originalmente postada no pensotopia, visite-os também.

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