Capítulo I – Ecos do Passado
14 609,688 dias para a Colisão
Muito longe dali um homem corre freneticamente.
- O que eles tanto querem? Indaga Kevin perdido em milhares de pensamentos que correm junto a ele. Ele não sabia onde estava, fazia minutos que havia saído da cidade e entrado numa floresta, tudo estava escuro e não fazia mais idéia de onde ir. Kevin percebe que em sua mão carregava um livro. – Só pode ser isso. Pensa Kevin quando percebe que os seus perseguidores estão cada vez mais perto. É então que pra sua decepção ele vê que estava caminhando para um penhasco. – É o fim do caminho, estou perdido. Suspira. – Vamos me salve, você quem me trouxe aqui. Grita Kevin em meio à frustração de uma morte eminente. - Eu fiz tudo o que você me pediu. Grita alucinado. Kevin chega perto da beirada lentamente e olha para baixo fecha os olhos e mergulha. – Salve-me. Pensa.
- Argh! Berra Rolland. Uma lâmina larga transpassa seu coração, ele sente a cada milímetro o ódio de seu oponente, delirante ele já não imagina o motivo pelo qual iniciou a batalha. Há um fio de sua morte ele vê sua vida passando como um filme, lembranças de sua infância brincando na beira do rio e correndo de bicicleta na plantação de milho. Seu corpo fica dormente e através do reflexo da lâmina ele é capaz de assistir sua imagem decaindo. Ele parecia está sonhando. – Como pode ser? Surpreso se pergunta. Parecia não acreditar, mas ele conseguia ouvir o som da água do rio e dos passarinhos cantarolando.
- Acorde Rolland! Está na hora de acordar. Ei você não tem escola hoje? Pergunta seu pai. – Você dorme demais para um garoto de 13 anos. Continua.
Descendo as escadas quase que tombando de sono ele avista os três de sua pequena família ao redor da mesa redonda de madeira, seu pai Sr. Talor, sua mãe Margareth e sua pequena irmã Dominic. Ele olha para a mesa e percebe que não há muito o que comer. A expressão de lamento nos rostos de seu pai e mãe eram visíveis, chuvas demais acabara com toda a sua colheita, pouco restou e mais uma vez poderiam passar muito tempo sem o que comer. Seu pai se levanta para a mesa e olha pela janela toda sua vegetação arrasada.
- Isso não pode ser sempre assim. Lamenta o Sr. Talor. – Meu Deus, tenho planos e dívidas, minha família precisa comer. As lágrimas encharcam seus olhos, mas, ele segura firme. Ele sente uma mão afagando seu ombro – Não se preocupe papai, tudo irá se resolver logo. Consola o Rolland. Mal sabia ele que suas palavras estavam a ponto de se tornarem realidade.
Como de costume, Rolland pega sua mochila e espera sua amiga Sam chegar para irem juntos à escola na cidade. Pra sua surpresa Sam havia chegado há pouco e o esperava em frente a sua casa. Sam era franzina, tinha cabelos curtos e escuros, olhos claros e traços muito finos contrastados com sua natureza completamente masculina. Era fácil qualquer um confundi-la com um garoto.
– Que tal eu te carregar até o rio com a minha bicicleta? Diz a menina que parece um menino.
- Temos escola hoje.
- Ah! Que é isso? Vamos rápido, ninguém vai notar nossa falta na escola.
Relutante o Rolland aceita o convite. Quando chegam lá apostam corrida, se molham e dão saltos mortais de cima de uma imensa árvore. De repente como se um pensamento desse um estalo:
- A cerca, meu pai me pediu pra colocar a cerca que falta, caraça as vacas vão fugir. Diz Rolland levando as mãos na cabeça.
- Que foi Tay? Era como a Sam chamava o Rolland.
Apressadamente Rolland se levanta e sai do rio e correndo vai em direção a sua casa. Seu pai tinha pedido que firmassem as estacas da cerca para que o gado não fugissem. Ele sabia que com a péssima colheita as poucas vacas eram de onde poderiam tirar seu sustento para o próximo mês. Ao chegar perto do galpão ele pega as estacas, a marreta e o arame, caminha até a cerca inacabada e percebe que há uma cratera enorme no chão feita pela erosão da chuva, dava para caber um caminhão.
- Maravilha! Era o que me faltava. Desabafa.
Ele desce a cratera apruma as estacas de madeira pega força na marreta e dá uma pancada com raiva. A estaca sai do lugar onde ele tinha colocado, então ele apruma novamente e bate de novo, dessa vez a estaca entra quase que pela metade.
- Minha nossa! Eu não coloquei tanta força assim. Pensa ele. Ele puxa com suas duas mãos a estaca afundada na lama. E ele pensa – 1, 2, 3 e puxa abrindo as pernas para ganhar mais força e a estaca fica frouxa. Ele pensa de novo 1, 2 e... A estaca salta sozinha do chão na altura de sua cintura. Confuso, Rolland se pergunta se está ficando louco. Uma estremecida no chão explicaria sua dúvida. Um líquido grosso e escuro saía do buraco feito.
Do outro lado da cidade a manhã era tão cinza quanto qualquer outra. Um garoto que sempre teve de tudo e o tudo ainda lhe faltava lamenta a caminho da escola.
- Que cara é essa Kevin? Pergunta seu irmão mais velho o qual era como um espelho, seu maior ídolo, um cara que ele queria ser quando crescer.
– É a vovó não é? Kevin abaixa a cabeça consentindo. - Acalme-se pequeno, deixe que o seu irmãozão resolve tudo, ela vai ficar boa eu prometo.
Um sorriso aguado e inseguro sai do rosto de Kevin. Ao chegar a sua escola eles se despedem e cada um vai para um lugar diferente, Kevin para sua sala e seu irmão não diz onde vai.
As aulas começam na escola toda, dava pra ouvir a barulheira de longe, professoras gritando por seus alunos, passos apressados no corredor e a réguas batendo nas carteiras pedindo atenção. Kevin olhava pra frente em direção a professora, mas seu olhar estava mais longe, ele estava distraído. Já era quase o fim de tarde quando uma voz de repente diz.
- Kevin! Kevin! Diz a professora.
- O que foi? Garoto distraído volta a si.
- Estão te chamando na diretoria. Avisa a professora.
Ele se levanta e caminha até a sala da diretora. Numa conversa sobre força de vontade e conseguir superar as dificuldades a diretora avisa sobre o falecimento de sua avó. O choque é forte, seu interior grita, mas, nenhuma lágrima sai. Uma batida forte e alguém abre a porta, era seu irmão com um olhar mais aterrorizado do que triste. Eles estava ofegante, suas roupas estavam sujas e molhadas. Kevin dá um abraço em sua cintura e seu irmão retribui acariciando sua nuca. Com uma voz trêmula ele diz.
- Eu falhei, a culpa foi minha, eu não consegui irmãozinho.
Balançando sua cabeça Kevin faz um sinal de negação. Ele está extremamente triste, porém, nenhuma lágrima sai.
Dizem que os olhos são a janela da alma, Kevin tem uma janela escura e seu íntimo é sombrio tal qual seu olhar. Se eles forem mesmo à entrada para sua alma, ela estaria trancada e sua chave perdida num deserto, pois ele sabe que sua alma não é algo bom de se mostrar.
No enterro de sua avó, ele não entendia o porquê as aves continuavam a cantar alegremente, nem o motivo das TVs continuarem a passar seus programas de humor. Ele estava triste e parecia que o resto do mundo não ligava pra isso.
Garoava no cemitério, seu pai e sua mãe perto do túmulo e Kevin afastado junto com o seu irmão.
Demoraria pouco tempo para que o destino de Kevin sofresse mais uma reviravolta.
Incontáveis noites sem dormir passaram após o melancólico dia no cemitério. Numa noite calada e escura um ruído quebra a monotonia do silencio do quarto de Kevin. Um barulho como o de um móvel grande caindo chamaria a atenção de todos na casa, pensa Kevin, mas por que ninguém se move. Ele sai do seu quarto e parece não ter medo de que seja um ladrão ou coisa parecida. Alguém parece arrastar o sofá do andar de baixo e Kevin desce ainda de pijama lentamente pelas escadas. Quando vê a cena mais brutal de sua vida. A sala molhada de sangue por todos os cantos, no sofá, na mesa, nos espelhos o cheiro era muito forte, seus pais jogados no chão e seu irmão em pé no meio deles e também sujo de sangue. Eles passam quase que uma eternidade de apenas alguns segundos fitando os olhos um no outro. Ambos parecem estar aterrorizados, porém as janelas de Kevin estão tristes e a de Liam furiosas. Mesmo assim, nenhuma lágrima sai e nenhum verá mais o outro por muito tempo.
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